domingo, 10 de maio de 2015

Fogo na roupa



Da luz, provocante na capa de seu ótimo segundo trabalho
Às vezes passamos ao largo de experiências musicais, talvez por preguiça ou preconceito, quiçá por essa cegueira que nos faz neandertais e a qual chamamos comumente de ignorância. Talvez seja assim com tudo o mais que nos cerca: somos de nascimento antenas de vida e, indo contra a maré, deixamos em várias ocasiões escapar aqueles sopros de conhecimento que faria da gente seres mais vivos e melhores, ou pelo menos, um pouco mais avançados. E foi assim com o RAP em minha vida. Distanciando-me de uma resistência idiota, aos poucos percebi que músicos iluminados como Sabotage, Criolo e Emicida conheciam os atalhos pra chegar ao coração de milhares de pessoas ávidas por mensagens que fizessem sentido e dessem sentido à sua existência. Música de periferia sim, talvez por isso mesmo de uma sinceridade espantosa e, também por isso, altamente recomendável para os círculos off morros e comunidades. E tava lá o Brasil escancarado em um som de raiz negra que aos poucos começou a se diversificar, abrasileirando-se e absorvendo outros batuques que enriqueceu o gênero. E gerando novos representantes tufados de atitude e talento, como é o caso de Lurdez da Luz, que lançou em dois mil e catorze, o excelente e lascivo Gana pelo Bang (2014).


<iframe width="480" height="270" src="https://www.youtube.com/embed/yHHl20_mpfM" frameborder="0" allowFullScreen=""></iframe>


Conheci a paulistana Lurdez da Luz com seu bacana EP de 2010, uma espécie de rascunho das boas intenções dessa rapper. Tinha já um tanto do desbocamento e da verborragia que chamaria atenção da crítica e que se alumbraria corajosamente também em trabalhos de colegas da Luz, como Karol Conká na pulsante estréia Batuk Freak (2013). Do primeiro trabalho para esse Gana pelo Bang, a artista evoluiu, ganhou consistência e ainda mais ousadia, que o diga o nome provocativo do álbum. Mas, que não nos enganemos pela sacada de duplo sentido, ou seria sacanagem, do título. O CD não é nem de longe um exercício de ilações ou malhações sexuais, com bundinhas descendo e subindo como incitam muitos funkeiros trogloditas em suas pornográficas composições. O rap abrasivo de Lurdez é de respeito. E traz consigo o desejo de provocar o desejo de querer mais, como sexo bem feito. Que tal uma declaração de amor franca, direta e abusadamente apaixonada a ponta da moça impedir que o amado não saia do recinto sem levar pelo menos um beijinho? É assim em “Beijinho”, música que dá o tom anárquico do CD e suas inconfidências musicais. Pérola pop boazinha demais para tocar em rádio. E bem que a moça merecia desfilar por aí nas FMs populares.


Disco da rapper é marcado pela maturidade da paulistana
Essa moça que veio de uma escola de boas rimas e sólida estrutura, ao lado dos manos do Mamelo Sound System, revolve sua experiência musical para falar de sexo, relacionamentos pessoais e a realidade da periferia com feliz maturidade. E discorre o discurso em músicas bem temperadas e letras fervilhantes. Em "DP", o papo é reto e desliza certeiro em melodia de batuque pulsante: “Olhe o quanto a gente já viveu/Já teve no ceu/ Baby, eu sou a sua praia/Chega dessa nóia/Não quero outro cara/ Só sei que quando a gente encosta, se enrosca é fire”. Fogo que se alastra por todos os lados, incessante como incêndio nos tanques de petróleo na zona de Alemoa em Santos. No corpo, nas ruas, na cabeça das pessoas reativas ao momento político e aos desvios da alma. Como não pensar nas manifestações que varreram o pais em 2014 e que parece ecoar na letra de “Fervo”: “Temperatura elevada, mais de um milhão nas calçadas(...)Meu pensamento a milhão e os que estão aqui também tão(...)/As ruas tão fervendo/O clima tá fervendo/as mentes tão fervendo”. É como Da Luz avisa logo, sem cerimônia, na hiperativa e suingada “Ping Pong”: “Meu RAP é real, não é de songa monga”.


E haja incêndio. Mas, se tem fogo pestilento que não se apaga, bem que vale a lembrança para que as pessoas o mantenha pelo menos em modo brando. Você se contenta com um belo cristal ou faz guerra pelo diamante lapidado? O recado é passado na politizada “Gana”: “Confunde com ganância que a idéia não é essa/Paraíso na suíça é só flor na conta corrente/ Império gana/ se ergue, no caso, da soja ou da cana”, canta Lurdez da Luz com sua voz afinada e anteparo de batuque e metais pra lá de dançantes. É discurso típico de quem imergiu numa realidade feita de sobras e contravenções. “Que eu sou da pior quebrada do mundaréu/Eu vou que vou/ Melhor ser suspeita do que ser réu/Brasil é gol de placa”, ironiza a rapper em “Naija” seu melhor e mais sombrio momento de Gana pelo Bang. Nesse aturdimento causado pelas diferenças sociais e isolamento econômico, no RAP de raiz “Poder”, o discurso se conecta com a periferia indignada na pergunta assentimento: “Pra que poder, vou te dizer/ Pra ser quem sou, vou te dizer/ Pra ser quem sou e quero ser/ Quero poder, não sou pra ter/ ir e vir, poder acontecer”. Talvez querendo dizer que gol de placa teremos mesmo quando os invisíveis muros desse Brasil caírem por terra e zona norte e zona sul, centro e periferia puderem conviver irmanamente. 

Da luz decreta: é música descarada para bailes e afins
 E todas essas letras, mil palavrinhas cortantes cantadas com endereço certo em Gana pelo Bang, estão super bem acompanhadas por músicos competentes e os arranjos tecno-brasileiros produzidos e galvanizados pelos afiados Leo Grijó, Leo Justi e Nave. O RAP de Lurdez da Luz é tolerante, generoso, permite engalfinhamentos, casamentos ostentatórios com o funk, o batuque, a macumba e o eletrônico. Suruba finíssima que permite crossovers até com a música indiana como em “Mente Aê”, que lembra o batidão de M.I.A, rapper do Sri Lanka, conhecida mundialmente pela fantástica mistureba musical que promove.Mistura de responsa, diga-se de passagem, e que nos leva invariavelmente para a pista. Descarada música para bailes e afins, pra se pensar e dançar, com essência eletrônica, black, negríssima e pulsante como em “Mama África”, uma das melhores do disco, com sua metaleira e coral feminino escaldantes: “Mama só que dançar/Isso é só frisson/Sente o fluxo, quero ver você mexer”. Tambores e suingue à serviço de letras à serviço do bem e da consciência. Gana pelo Bang é álbum valoroso que coloca Lurdez da Luz no panteão dos rappers nacionais e deixa todos nós ouvintes atônitos. É, a música, definitivamente tem poder. 

Cotação: ótimo

Vai lá e baixe: http://www.lurdezdaluz.com/