terça-feira, 22 de março de 2016

Dos discos de 2015 que ouvi em 2016 ou Me gusta, te gusta, quem não gosta?

O combo Macumbia, da Paraíba: batuque certo para animar qualquer festa
Na região mais ao norte do país, estado onde repousa parte do imponente Monte Roraima, gigante numa fronteira que parece ter saído de um sonho desses de filme de fantasia, vivo. Em Boa Vista, a capital. Aqui há sombras de um realismo mágico tal qual um livro não escrito de Cortázar muito e, principalmente, pela influência avassaladora de tantas raças, deuses e ritos. Ritos que vem do concreto cheirando a novo, do Nordeste profundo, das profundezas da floresta amazônica que se se revela nos cheiros tropicais trazidos por inesperadas ventanias. Nos deuses pre-colombianos que de quando em vez dançam no solo da cidade que tenta desesperadamente ser moderna, convocados por instigados venezuelanos que buscam enviesadamente se enraizar por aqui. De tantas cores de pele, de tantos pelos lisos no couro da cabeça, de bugre, de índio, de branco, de olhos miúdos que pontuam a tez soberana do rosto ou do tamanho do globo terrestre, amendoados, tão belamente negros, da graça brasileiramente nordestina e sua cultura radical, tudo isso traz seus tambores, seus sons roucos, uma musicalidade que se permite fértil em terra de tantos tons. Quem imaginaria que da Paraíba viria uma música que aqui, no início do mundo, se mostraria muito mais comum? Porque do caribe, do pop reggaetown venezuelano cheio de marimbas e maracas, tão vizinhos daqui, a inspiração seria mais osmótica. Mas, Macumbia, a banda paraibana, e seu fervilhante Carne Latina (2015) mostram que a influência cruza fronteira, transpassa brasis e faz de nosso continental território um só organismo.

Assista vídeo caseiro de “Pablito”:


E se nesse organismo Brasil existe uma característica, um elemento que nos unifica, esse é a alegria. Aquela que nos faz sobreviver diante de situações tão agudas e exasperantes, como a que vivemos atualmente na política. A mesma que pode nos salvar do ódio e do rancor que emerge de uma disputa ideológica onde, no fundo, ninguém está com a razão porque os dois lados conseguem sequer se questionar dentro da inefável geografia da civilidade. Essa pulsação que, de alguma forma, nos liga também a uma territorialidade ainda maior, a essa América do Sul que faz da carne latina espelho desse espírito solar e o gene predominante desse combo paraibano. Macumbia é o lado travesso, o lado travesti, a alma travestida de baile e pista de dança. É o Brasil latino que chama simplesmente para se requebrar e ser feliz perdendo o máximo de calorias e mau humor. Essa carne latina que se oferece quente e provocante não deixa espaço pra tempo ruim. Dez músicos chamam pro terreiro, pra essa irresistível macumba que flerta com a rumbia, o reggaetown, o batuque brasileiro e toda uma latinidade cucaracha tão orgânica quanto pode ser a alegria. Os dez, Thales Pessoa (guitarra e vocal), Erik Martinez (vocal), Rafael Farias (baixo e vocal), Priscilla Fernandes (percussão), Katiuska Lamara (percussão), Bruno Braz (guitarra), Xico Vasconcelos (bateria), Dave Kane (trompete), Rodrigo Marques (saxofone) e Alesson Rayf (trombone), convidam pra festa.

Banda é movida pelo mistura de ritmos latinos e brasileiros
Carne Latina, com a permissão dos deprimidos de plantão, pode ser um respiro nesse momento de agonia onde todos parecem viver um justificável, diga-se de passagem, clima de missa de sétimo dia. E a alegria, afinal, é também santa. Por isso, ouvir o segundo álbum de carreira dos paraibanos do Macumbia (o primeiro é Chuta que é Macumbia, de 2013), é de fé para quem gosta de esquentar, desencanadamente, alma e pé. Então vamos nos despir dessa casca grossa maniqueísta que hoje tentam nos impingir para se deixar levar, pelo menos nos pouco mais de 40 minutos de vida do disco, pelo poder das maracas e percussão sul-americanas. Cantado em espanhol, português e deliberadas e hilariantes pitadas de portunhol, o vibrante instrumental mexe com todas as células de nosso corpo. E faz das músicas como “Por que Yo?”, um emblemático abre-alas do álbum, tapete vermelho para entrar com o pé direito no salão de dança. Aqui, depois de uma introdução eletrônica climática, a bem humorada canção de levada caribenha descreve um desses “baculejos” que os cidadãos amantes da vida noturna costumam levar e o lamento pelo infeliz e sempre constrangedor ocorrido: “Ai, mi cielo, porque yo? (Usted rodou) Capitão Medina, tu sabes que soy inocente”, cantam aturdidos. É o começo de um baile caliente que nas sete músicas seguintes que certamente tem tudo para deixar nossas roupas ensopadas de suor.

Caribe, Brasil, rap e brega se enroscam sem vergonha em uma massa sonora conduzida com fervor pela trupe que reúne, em círculo aberto, vários representantes dessa américa de ritmos festivos. Exemplo disso é a envolvente e sensual “Cobertor”, que incita e provoca já nos primeiros acordes: “Pra que tu queres um cobertor se tua negra já lhe tem calor todo o dia”. O arranjo que lembra a velha escola cubana do Buena Vista Social Club, influenciada pelo jazz e pelo batuque ancestral, se apodera da composição, um dos bons destaques de Carne Latina. Tem cunho mais clássico, assim como “Papai Noel”, que fecha o disco em tom mais instrumental até para mostrar que os meninos da banda se arriscam a voos mais sérios. No meio do caminho, o que se vê contudo, e o que dita o clima do álbum, é uma despojada forma de cantar o cotidiano do jeito mais dançante e alegre que esses piratas da felicidade podem nos oferecer. “Pablito” é fuleiragem e cumbia das boas, com a participação especial e o aval dos ótimos potiguares da banda DuSouto e todos os elementos, lícitos e condenados, que povoam uma noite ilimitada de festa: “Tequila, mulher e marijuana que interessa/Me gusta, te gusta, quem não gosta?/Pablito já chegou foi com a coca, direto de Bogotá/Se for pra misturar com rum pode botar”, sacaneiam com estilo os doidos e os pudicos.

Em “Passito de Cuernavaca”, com ecos de cucaracha mexicana (que viva o México) e arranjo superdançante, o Macumbia produz uma de suas melhores composições “para bailar em la madrugada”. Com toque mais brasileiro, beirando o brega, “Parahyba” é outra engenhosa composição que lembra o carimbó e o ritmo elétrico da guitarrada paraense, acompanhados aqui por um impagável teclado. Curtidos pelo sol privilegiado de João Pessoa, sem dúvida uma das capitais mais deliciosas pra se viver neste país bonito por natureza, os beach boys e as boys (pras bandas de lá há essa denominação divertida e incongruente para ambos os sexos) do grupo fizeram de Carne Latina um bólido de alegria para se viver sem culpa. Simplesmente dance, como se não houvesse amanhã, despretensiosamente, com a leveza dos que precisa desopilar do estresse e das maldades do mundo. Por isso, nesse caso, quando avistar essa macumbia, não chute, abrace, porque essa é do bem e da boa.

Cotação: Bom

Baixe o disco em:  www.macumbia.com.br