domingo, 21 de maio de 2017

Som plugado em desfibrilador



Dinucci faz de Corte Curto, som para despertar os sentidos
Sabe quando trava, quando os sentidos levam uns bem dados sopapos e o cérebro que andava seguindo o compasso de todo o mundo de repente rema contra a maré, rima com o inesperado? Curtos-circuitos necessários. Porque toda cabeça, de Guiné-bissau a Tókio, de Flecherinhas a Curitiba, sempre aguarda solavancos que a tirem da caretice que nos aprisiona muitas vezes numa letargia perigosa, nessa armadilha tão fácil de cair. Ai de nós que se deixamos pegar. Daí a sacudida ser remédio, ser cura. O paulista Kiko Dinucci, desde algum tempo, tem oferecido uma fórmula pra gente sair do normal, essa alquimia transversa que só a música comporta. Esse workaholic dessa São Paulo vanguardista, dessa gente que chuta nossa canela e chocalha nosso cérebro, chega com novo trabalho com nova sonoridade com nova porrada feita para acordar. Despertador. E desperta sons elétricos, plugados em desfibrilador, abre chagas com vômitos e escarradas que vão velozes pro buraco de nossa orelha. E assim Cortes Curtos (2017) provoca estranheza mas também beleza porque a música desse cara tem muque e concretude, jeitão de blockbuster pra tremer a alma.

Veja curta-metragem sobre o processo de gravação de Corte Curto:

Cortes Curtos é o primeiro disco solo de Dinucci. Quem está ligado no mercado alternativo da música brasileira que interessa, sabe que o compositor é também guitarrista de dois projetos superbacanas e que gerou frutos tenros e promissores, o Metá Metá e o Passo Torto. Mas, o paulista também já deixou sua assinatura robusta, em idéias e cordas elétricas, nos discos não menos elogiados pela crítica especializada das feras Juçara Marçal, entre outros Padê (2008) e o encantado Encarnado (2014), parceira de toda hora, e Elza Soares, leia-se nesse caso, o espetacular Mulher do Fim do Mundo. Todos eles trabalhos que carregam uma forte carga experimental e que estão comprometidos não com a moda ou com o senso comum mais simplesmente com a vontade de se fazer uma música autoral, antenadas com o coração de quem está por trás dela. E que tem o tom, sim da vanguarda, de outros iluminados como Itamar Assumpção e Rômulo Froes, só para citar dois desses provocadores.

Juçara Marçal, parceira de toda hora, também brilha em CD
E o que é o corte curto na linguagem imagética do cinema senão a frenética interrupção de uma cena para a seguinte, que perturba a visão e mexe com os sentidos. Como flashes rápidos, como socos ligeiros, como o último trabalho de Dinucci. “Ele é mais filme do que disco, ouça numa tacada só, ouça em volume alto se for possível”, definiu o autor na apresentação do CD. Como um filme de Godard na intenção do transe, mas com pegada abrasiva de Tarantino. Pode isso, Arnaldo? Pode com certeza. Porque tudo no disco tem a marca intensa do onipresente Dinucci, em suas guitarras, já reconhecíveis de imediato, com espírito atonal e deslizes metaleiros, como na música que abre o “filme”, “No Escuro”, composta com Wandi Doratiotto, em que profusão instrumental claramente experimental e em velocidade estonteante acompanha letra de frase única, “No escuro, uma pedra vira um muro”. E essa pedrada vira mesmo. Irmã siamesa, a tresloucada “Desmonto sua Cabeça” vem na seqûencia em perfeita simbiose com a anterior, em corte curto, em poesia concreta, corte seco: “Desmonto sua cabeça/Eu tenho mas não uso/Remonto sua cabeça/E sobra parafuso”. Pode, Arnaldo!

E nossa cabeça se desmonta ao longo de Cortes Curtos. E se remonta nos caminhos tortuosos inspirados pelo disco, se encontrando multifacetada em melodias de apreensão não tão fácil mas que, com boa vontade, conquistam o coração da gente pela autoridade da proposta. Esse universo barulhento e por vezes, alucinado, tem por dentro um fio de paixão que imanta as composições e nos fazem levitar. A linda “Chorei”, de Beto Vilares, em dueto afinado com Juçara Marcal, ganha ares épicos mantendo ao fundo uma doce harmonia que acompanha a letra crua, pontual e direta: “Chorei quando vi você nascer/Chorei pra valer”. Dinucci é piloto experiente de vôos rasantes, porrada doída e reveladora de uma São Paulo tão cosmopolita quanto violenta, como na ótima “Uma Hora da Manhã”, em que descasca o preconceito de cada dia em letra que narra a briga, no supermercado Extra na avenida Brigadeiro, de uma nordestina com um homossexual. Diálogos da madrugada. Escanfandrista de mergulhos sem fim, Dinucci canta em “Seus Olhos”, em parceria com Sinhá: “Seus Olhos tem o tamanho da minha ferida”. De novo, curto e grosso e banhado em sonoridade pesada, com guitarra guerreira e hipnótica.

Mas Dinucci é capaz também de momentos mais leves. Se bate, pode assoprar, a exemplo de “O Inferno Tem Sede” e a “Morena do Facebook”. A primeira, amorosa, conta com a participação especial da especial de Tulipa Ruiz, uma delicada música pop na raiz e encantadora na superfície. A segunda, bem humorada, tem compasso lento, passo praiano, curta-metragem da vida real em contraponto a vida virtual: a morena do facebook que não enxerga os admiradores que passam ao seu lado é real ou virtual? As mulheres, aliás estão presentes de forma significativa no álbum. Além de Tulipa, tem a maravilhosa Ná Ozzetti, na circense “Inferno Particular”, e outras duas musas da vanguarda paulista, a já citada Juçara Marçal e Suzana Salles, essas em vários momentos desse disco cheio de belos lampejos. E tem os manos, figuraças pra lá de talentosas, como Thiago França, Rodrigo Campos e Rômulo Froes, só para listar aqueles com belos discos na bagagem. Não é pouco. Certeza: esse cara está bem acompanhado. Tudo isso credencia Corte Curto a tocar merecidamente em seu player. É disco para entranhar e se ter na memória. Porque curtos-circuitos na alma são mais que necessários.

Cotação: Ótimo

Pra download em alta rotação no site do artista: