Nesse mundo de poucas medidas, amizades desconectas e razões
rasas, é saudável interagir com conteúdos que nos fazem sentir mais humanos e integrados
às pessoas que resistem à mediocridade. E se existe um movimento invisível na Terra
que nos empurra para o fundo de um lamaçal que tenta nos engodar nesse nó
troglodita de ignorância, de duro desenlace, é bom que tenhamos as chaves dos
quartos onde possamos entrar, respirar e nos enxergar. E a música tem esse
poder de desatar nós, de criar essa comunhão com o que nos faz sentir bem, de
conjugar sentimentos e levantar espelhos. O paraense Saulo e os amigos da Unidade
buscam essa interação, abrindo flancos no meio dessa névoa cerrada produzida
pelas rádios comerciais, e expondo uma visão confessional e honesta sobre esses
dias que vivemos. E o que é melhor, sem perder a capilaridade do pop. O
terceiro disco do artista e seus comparsas, Cine
Ruptura (YB Editora/Natura Música), lançado em junho, exala frescor e uma doce positividade
amparados em um discurso simples e sábio. Como uma reza voltada pra dentro da gente
e que nos impele a puxar o freio diante desse cotidiano esquematicamente estressante.
Veja “Uma Música” em show ao vivo em Fortaleza:
https://youtu.be/DUXg13vnbpk
“Olhe sempre pela janela, mantenha os olhos sempre vivos/essa força no seu coração, sim essa força(...)Cada gota de transformação não é só uma gota”, de Uma Força
“Olhe sempre pela janela, mantenha os olhos sempre vivos/essa força no seu coração, sim essa força(...)Cada gota de transformação não é só uma gota”, de Uma Força
Saulo parece ser desses caras que procura brechas no breu. Como
uma clareira. O pop de Cine Ruptura é
um meio termo entre a desencanação do ótimo primeiro disco da turma de 2012, que leva o
nome da banda, e a sofisticação de Quente (2014),
o segundo. É um equilíbrio muito bem-vindo, desses que chega imperioso com a
maturidade. E aí encontramos um músico e sua banda senhores de si, em
artesanias que falam à alma. Descerra o pano logo enredando o ouvinte em um
líbero empoderado por guitarras marcantes que emplaca façinho na cabeça de
quem ama a liberdade, aliás o nome da canção: “Você tem todo o direito de tomar
sua cerveja/de fumar o seu cigarro/de fazer sua cabeça/ sem ser importunado por
quem quer que seja”. Assim começa o diálogo de Saulo. Como num criativo teatro
de rua, propõe uma conversa aberta com o público explorando infusões radicais,
como as nordestinas em “Terra Vermelha”, uma das mais fortes do álbum, que
conta com a participação do talentoso Russo
Passapusso, irmão de experimentações musicais criativas. Pé no chão,
tambores na terra vermelha “cor do coração” chama pra roda essa fogueira sempre
acesa que é nossa relação com o Brasil ancestral de negros e sertanejos que
modelaram a cultura nacional.
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| Saulo e a Unidade: música antenada com o dia a dia |
As letras, a maioria composta por Saulo, seguem uma linha que busca exatamente uma conversa que exige
interação com o ouvinte. Se não, pra quê compor? As composições trazem uma
visão eloquente do mundo, um discurso pacifista e generoso que ora alerta ora
aconselha. Aconselhamentos sem qualquer tom moralista ou doutrinador. É um tom
de ocupação, usando uma palavra da moda. Ocupação da consciência. “Olhe sempre
pela janela, mantenha os olhos sempre vivos/essa força no seu coração, sim essa
força(...)Cada gota de transformação não é só uma gota”, sugere no acolhedor
reggaezinho de “Essa Força”. E essa espiritualidade em doses certas ainda é
mais bendita na bela “Uma Música”, outra balada confessional, a mais descaradamente
confessional e melodiosa do disco, raio X dos que envenena hoje em dia, mas com
receita do antídoto embutida nela: “Às vezes é difícil falar, às vezes é
difícil pensar na agonia do dia a dia e todas essas coisas que não param de
crescer/ E um coração desnorteado, cansado não entende tanta covardia(...)
Procuro um caminho confortável onde possa tranquilamente desatar os nós da
minha garganta, isso é esperança. Cantar tem gosto vivo e é o contrário de
morrer”. Cantar faz Saulo e a Unidade
bem vivos e convincentes. Quem convence é Saulo
Duarte (voz, violão, guitarra), João
Leão (teclados, vocais), Klaus Sena
(baixo, vocais), Beto Gibbs (bateria, vocais), Betão Aguiar (Guitarra), Tulio Bias
(percussão, vocais), Igor Caracas (percussões, vocais).
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| Leveza e interação num disco para se guardar |
Cotação: 4
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