segunda-feira, 7 de março de 2016

Dos discos de 2015 que ouvi em 2016 ou Navegando em céu de brigadeio


Zé Pi faz da música mar seguro pra se navegar

Onde estão as coisas que nos deixam felizes? Basta às vezes olhar para um canto de rio e imaginar que a placidez de um dia conturbado pode estar toda contida ali, naquele quadrante da água que corre impertinente para o mar. E dar de cara com a serenidade, em toda sua intensidade, é, em muitos momentos, tudo o que você precisa pra equilibrar o eixo da alma descarrilhada. E esse estado de ser não se encontra apenas no canto do rio, no canto visceral da lavadeira ou na cantoria do pássaro que, olha ali, abra o ouvido!, passarinha na árvore do quintal de sua casa. Está também numa canção, num disco pegador que faz você parar para ouvi-lo. É assim com Rizar (2015), trabalho revelador do paulista Zé Pi, que traz música potente, de rima clara e melodias sedutoras, dessas que mexem com os sentidos e faz com que nos aquietemos para navegar nela. Qual como um comandante de navio, incorporado pelo músico na foto da capa do álbum, convida para um passeio em céu de brigadeiro com passagens por rápidas, mas controladas, tempestades.

Assista ao clipe de “Fique à vontade”:


De Zé Pi sabia pouco. Que ele tinha pareado com a incrível Tulipa Ruiz na canção do amor demais “Só sei dançar com você”, do primeiro e luminescente álbum dela, já havia guardado na memória. E que lindo foi. Desconhecia ainda seu potencial de nos agarrar pelo ouvido e, danado, de chacoalhar nossa cabeça com pequenos projéteis sonoros a atingir o nosso coração desavisado. Rizar chega assim como uma promessa, cumprida, de comparecer inteiro e presente, feito compadre na hora da dor, na sua intenção de se fazer necessário. De criar laços. O artista vai de uma ponta a outra dessas sensações, lúdicas e ensimesmadas, que toda canção deveria inspirar. Constrói composições mais calmas, hipnóticas, da mesma forma que nos incitar a mexer o corpo ao som de rocks básicos, quase ingênuos. Esse cara é rock e é MPB e é pop, assume sem temor o desejo de ser popular, de ver suas criações e de parceiros serem cantadas por muitos e isso, o que é melhor, sem perder de vista a qualidade e a ternura.

Zé Pi com a amiga Tulipa Ruiz: momento luminoso
Se fossemos pensar o CD de Zé Pi como um disco de vinil, com seu lado A e B, poderíamos dividir essa obra aberta em duas claras vertentes. A primeira é a roqueira, inspirada nos anos 50/60 ou até mesmo no rock Brasil que acelerou os corações e mentes nos caretas anos 80 do século passado. E aí temos um músico exponencialmente pop até a medula, com composições assobiáveis, de melodia fácil e refrões grudentos, como foi o rockabilly, com direito a coros femininos desenhando onomatopeias. Naquela mesma linha, direta, dançante e abrasiva, que fez do cínico Rock’n’roll Sugar Darling (2014), do talentoso Thiago Pethit um dos melhores discos de rock do país desta década. Em “Muito Tempo”, é possível ouvir ecos da jovem guarda em uma canção de letra abusadamente romântica. “Não sei não se o meu coração pode aguentar mais não/ vê se me atende, é muito sério mesmo “, diz o refrão iê-iê-iê acompanhado de vozes femininas fazendo background pra lá de nostálgico. “Acredito”, que vem logo depois, é como uma sequência natural da música anterior, roquinho delicioso e pegajajoso pra embalar amores sinceros. Lado fechado por “Se Voce Soubesse”, a mais pesada e rocker de todas. “Se você soubesse o que você merece, eu posso dar/Com você eu faço tudo”. Pode fazer, Zé Pi, com essa pegada as mina vão pirar.

O lado B encontra um compositor mais confessional, desacelerando o pé e acelerando o coração. É a construção que mais gosto. O tom maduro das canções, carregadas de forte sentimento avalizado por melodias engenhosas e arranjos bem cuidados. Menos pop mas com estatura suficiente pra conquistar as mentes, os momentos mais calmos do artista são também os mais encantadores e convincentes. Já no início de Rizar, o cantor e compositor pergunta pra fazer depois a elegia do amor utópico: “Onde estão as coisas que nos deixam felizes? (...) Eu queria ser mais feliz pra você, e destruir tudo que é pra destruir e só ficar com coisas boas de lembrar. Já desisti de desistir”. A música traz um arrebatador arranjo de cordas de Jaques Mathias que só reforça a beleza melódica da música. E a lindeza do mesmo naipe se repete na fantástica “Depois”, com a participação especial de Tulipa Ruiz, devolvendo a gentileza em música com letra afiada. A mântrica “Bem Melhor que Está”, uma das mais lindas do CD, traz Zé Pi, com sua pequena voz, entregando-se de corpo e alma a essa canção tão triste quanto carregada de esperança.

Rizar é estréia potente e equilibrada
Enfim, destilando rock ou investigando amores, Zé Pi neste que é seu primeiro disco solo, depois de provocar atenção e curiosidade com a banda Druques em meados da década passada, surge como uma doce promessa. O paulista tem estofo e idéias e talento pra falar mais bonitezas pros nossos ouvidos. Com Rizar, acompanhado de Meno Del Picchia, no baixo, Richard Ribeiro, na bateria e André Lima, nos sintetizadores, esse cara faz uma estréia equilibrada, luminosa. Esse navegante que há duas décadas veleja nos mares da música, sempre ao lado de outros bom comandantes e parceiros de lida, tem a bússola bem calibrada, apontando para o bom gosto e para portos seguros. Para a sorte de todos nós, marujos de primeira viagem, que acompanhamos esse velejar. Zé Pi sabe onde quer chegar e vale a pena chegar junto para não perder essa instigante aventura.

Cotação: Muito bom

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